{"id":309,"date":"2021-04-07T11:40:13","date_gmt":"2021-04-07T14:40:13","guid":{"rendered":"http:\/\/radiopirada.com\/radiopirada\/?p=309"},"modified":"2021-04-07T11:40:17","modified_gmt":"2021-04-07T14:40:17","slug":"a-trajetoria-do-eduardo-bueno-peninha-no-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/radiopirada.com\/radiopirada\/?p=309","title":{"rendered":"A trajet\u00f3ria do Eduardo Bueno (Peninha) no jornalismo"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Entrevistado por Susi Tesch<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Iniciou sua carreira aos 17 anos na Zero Hora, onde ganhou o apelido de Peninha. Jornalista, escritor, tradutor. Um jornalista roqueiro, amigo do Bob Dylan e apaixonado pelo Gr\u00eamio. Nesta entrevista Peninha conta um fato in\u00e9dito de como o Bob Dylan percorreu o caminho do gol em Porto Alegre, em 1991, al\u00e9m de falar sobre sua carreira.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SUSI: O QUE LEVOU VOC\u00ca ESCOLHER JORNALISMO, COMO PROFISS\u00c3O?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>EDUARDO: <\/strong>Eu sempre tive uma voca\u00e7\u00e3o pra escrever, desde crian\u00e7a, pelos oito, nove anos de idade j\u00e1 escrevia, n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, eu era apaixonado pelo Egito Antigo, ent\u00e3o comprei v\u00e1rios livros sobre o Egito. Na ocasi\u00e3o eu estava convencido, de certa forma, e ainda estou que vivi no Egito em uma vida anterior, e sentia uma necessidade imensa de saber sobre o Egito. Ent\u00e3o eu lia e fazia compila\u00e7\u00f5es, como se fosse uma esp\u00e9cie de livro meu mesmo sobre o Egito, ainda tenho esses cadernos. Logo depois eu me apaixonei por futebol, pelo Gr\u00eamio especificamente.<\/p>\n\n\n\n<p>(Risos) Na verdade eu odeio futebol, eu gosto s\u00f3 do Gr\u00eamio.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento comecei a escrever sobre o pr\u00f3prio Gr\u00eamio, fazia cr\u00f4nicas e cr\u00edticas dos jogos, isso com dez, onze e doze anos de idade. De in\u00edcio cheguei a pensar na possibilidade de cursar alguma coisa relacionada \u00e0 arqueologia ou egiptologia, porque esse meu interesse na arqueologia pelo Egito persistiu por muitos anos, mas era uma coisa invi\u00e1vel, uma loucura. Cheguei a pensar em hist\u00f3ria tamb\u00e9m, mas nenhuma delas me parecia ser uma profiss\u00e3o, que eu pudesse aqui mesmo em Porto Alegre imediatamente come\u00e7ar a exercer. A\u00ed sobrou o jornalismo, que por uma s\u00e9rie de interesses na \u00e9poca especialmente o futebol e o fato de escrever. \u00c9 claro virei rep\u00f3rter de esportes da Zero Hora, em 1976, e fiquei um temp\u00e3o percorrendo as reda\u00e7\u00f5es do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SUSI: UM JORNALISTA QUE VOC\u00ca ADMIRA?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>EDUARDO:<\/strong> Pra dizer a verdade eu nunca morri de amores por jornalistas brasileiros contempor\u00e2neos, claro que tem v\u00e1rios com dos quais eu apreendi, o Augusto Nunes, antes dele virar essa coisa nova que virou, o pr\u00f3prio Elio Gaspari, um cara que tamb\u00e9m seguiu por essa linha de hist\u00f3ria. Eu sempre tive uma pegada meio \u201camericanofila\u201d, uma liga\u00e7\u00e3o cultural muito forte com os Estados Unidos, eu j\u00e1 morei l\u00e1, ajudei a traduzir alguns livros como o On the Road \u2013\u00a0 P\u00e9 na Estrada, gera\u00e7\u00e3o Beat. Ent\u00e3o na verdade os jornalistas que eu mais admirei na minha vida foram os jornalistas americanos da chamada New Journal, que h\u00e1 essas alturas, j\u00e1 \u00e9 o Old Journal, que \u00e9 o Gay Talese, Norman Mailer, Tom Wolfe, de certa forma at\u00e9 o Truman Capote. O Truman Capote, n\u00e3o \u00e9 propriamente um jornalista, mas \u00e9 o cara que inventou o romance de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, o livro \u201cA sangue frio\u201d, n\u00e3o deixa de ser um relato jornal\u00edstico, sobre um assassinato famoso, um livro que mudou a minha vida, como a de tanta gente, de tantos jornalistas que o leram, e eu sempre persegui esse vi\u00e9s do jornalismo liter\u00e1rio, muito influenciado, por esses jornalistas norte americanos, que eu sigo admirando at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SUSI: NA TUA OPINI\u00c3O, O JORNAL IMPRESSO VAI ACABAR?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>EDUARDO:<\/strong> Acho que n\u00e3o. Acho que evidentemente o papel dele, literalmente n\u00e9, o papel dele passa por grandes mudan\u00e7as e transforma\u00e7\u00f5es. Vai continuar passando. \u00c9 um espa\u00e7o que vai diminuir. \u00c9 \u00f3bvio que a not\u00edcia eletr\u00f4nica, a not\u00edcia da internet vai ter cada vez mais penetra\u00e7\u00e3o e cada vez mais rapidez, se \u00e9 que isso \u00e9 poss\u00edvel, porque j\u00e1 \u00e9 extraordinariamente r\u00e1pido, j\u00e1 \u00e9 praticamente instant\u00e2neo e vai ser virtualmente instant\u00e2neo, ent\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio que o papel vai ter que repensar o seu espa\u00e7o, de novo, parecendo uma piada&#8230;o seu papel. J\u00e1 tem feito isso de certa forma. No Brasil, como todo o resto, tardiamente. Mas, por exemplo, jornais como o <em>Guardian<\/em>, brit\u00e2nico. Revistas como a <em>New Yorker<\/em>, americana, embora n\u00e3o seja um jornal, seja uma revista, eles comprovam que sempre vai haver espa\u00e7o para jornalismo investigativo e pro jornalismo de an\u00e1lise, entendeu? Quem \u00e9 treinado, quem \u00e9 afeito \u00e0 leitura, quem \u00e9 treinado a uma leitura mais profunda, mais extensa, \u00f3bvio que vai sempre consultar na internet e ver no computador, mas tamb\u00e9m \u00e9 \u00f3bvio que pelo menos pelos pr\u00f3ximos, sei l\u00e1, trinta anos, vai continuar lendo no papel impresso. E para que o papel impresso agora se preza? A esse jornalismo investigativo de qualidade. Porque o <em>neguinho<\/em> come\u00e7ou a dizer assim&#8230;isso, <em>cara<\/em>, \u00e9 uma das coisas mais importantes que eu vou dizer pra ti&#8230;<em>neguinho<\/em> come\u00e7ou dizendo assim: \u201cah, acabou o jornal de papel&#8230;vai acabar o jornal de papel\u201d, decretou o r\u00e9quiem, a morte do jornal de papel no Brasil, e a\u00ed nunca mais investiu em jornalistas, nunca mais pagou sal\u00e1rios decentes, nunca criou cursos de forma\u00e7\u00e3o realmente efetivos para ter jornalistas de verdade, s\u00f3 tem um bando de m&#8230; trabalhando num monte de jornal de m&#8230; e as pessoas dizem assim: \u201cos jornais s\u00e3o ruins, os jornais morreram\u201d. Claro, desse jeito v\u00e3o morrer mesmo, porque s\u00e3o uns jornais de <em>m<\/em>&#8230; com um monte de gente de <em>m<\/em>&#8230; escrevendo <em>m<\/em>&#8230;, ent\u00e3o <em>p<\/em>&#8230;, \u00f3bvio, n\u00e9. Eu n\u00e3o assino nenhum jornal brasileiro, me recuso a assinar um jornal brasileiro. Ler eles na internet \u00e9 mais do que o bastante, porque s\u00e3o fraqu\u00edssimos. Agora, o verdadeiro jornalismo de interpreta\u00e7\u00e3o, de analise, o jornalismo que abre novas janelas no teu conhecimento, dizer: &#8216;n\u00e3o tinha pensado nisso&#8230;&#8217;, &#8216;&#8230;p\u00f4, \u00e9 \u00f3bvio que isso pode ser assim&#8230;&#8217;, tipo essa morte do Osama Bin Laden agora, embora seja uma mat\u00e9ria controvertida, n\u00e9, do <em>Seymour Hersh<\/em>, \u00e9 por a\u00ed&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SUSI: O QUE TE LEVOU PARA A HIST\u00d3RIA NA TUA CARREIRA?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>EDUARDO: <\/strong>Eu sempre achei que jornalismo e hist\u00f3ria caminham juntos. De certa forma s\u00e3o complementares. \u00c9 \u00f3bvio (\u2026) uma certa superficialidade naturais, \u00edntimas do jornalismo di\u00e1rio parecem em confronto com a an\u00e1lise historiogr\u00e1fica mais densa e mais profunda. Mas, na verdade, a hist\u00f3ria tamb\u00e9m se faz muito a partir de relatos jornal\u00edsticos, pesquisas em jornais&#8230;\u00e9 fundamental. Muitas vezes o jornalista, ele n\u00e3o tem a clara percep\u00e7\u00e3o de que quando ele est\u00e1 fazendo um registro jornal\u00edstico, ele, dessa forma, est\u00e1 fazendo um registro hist\u00f3rico. Por isso, ele tem que ter uma preocupa\u00e7\u00e3o com a quantidade, sabe, tem que ser uma coisa precisa, tem que ser uma coisa, na medida do poss\u00edvel, tamb\u00e9m detalhista e com veracidade, porque esse registro vai ficar. E esse registro pode vir a ser consultado. E ele provavelmente ser\u00e1 consultado por historiadores no futuro. Ent\u00e3o, h\u00e1 um fio que une a hist\u00f3ria com o jornalista. Pra mim, isso sempre teve claro, desde crian\u00e7a. Tanto \u00e9 que eu ficava na d\u00favida se queria fazer hist\u00f3ria ou ser jornalista. E a\u00ed chegou uma hora, depois de uma experi\u00eancia muito grande como editor, eu fui editor de livros na <em>L&amp;PM<\/em>, colaborei com a <em>Brasiliense<\/em>, com a <em>Companhia das Letras<\/em>, eu adquiri o conhecimento do mercado editorial brasileiro, ent\u00e3o eu sabia que tinha um nicho de ideias de hist\u00f3ria escritas com o vi\u00e9s jornal\u00edstico, sabe, que era uma coisa que ia vender. Porque o mercado editorial, como diz o nome, \u00e9 um mercado. \u00c9 uma coisa que vende, ou n\u00e3o vende. Eu achava que ia vender. No sentido, pleno da palavra, em uma quantidade imensa. E era mesmo, porque tinha esse nicho, tinha esse vazio. E eu cheguei ali e preenchi. Tanto \u00e9 que depois de mim, vieram outros jornalistas, (\u2026) o <em>Leandro Narloch. Foi por isso, foi uma op\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica, tamb\u00e9m, em fun\u00e7\u00e3o, acima de tudo, do meu amor pela hist\u00f3ria, hist\u00f3ria do Brasil e hist\u00f3ria geral.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>SUSI: QUAL O TRABALHO QUE TU MAIS TE ORGULHA DE TER FEITO?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>EDUARDO:<\/strong> Olha, tu sabe que \u00e0s vezes eu fico me perguntando o que falta para esse pa\u00eds erigir uma est\u00e1tua pra mim, n\u00e9? N\u00e3o precisa ser de ouro, pode ser de bronze! (risos). Olha, <em>cara<\/em>, \u00f3bvio que \u00e9 piada. Mas \u00e9 o seguinte. Olhando pra tr\u00e1s, eu fiz algumas coisas que realmente \u00e9 de orgulhar. Eu sou o principal respons\u00e1vel pela chegada da gera\u00e7\u00e3o <em>Beat<\/em> (Beatniks) no Brasil. Eu que traduzi <em>On the Road,<\/em> de Jack Kerouac, em fun\u00e7\u00e3o do sucesso desse livro eu pude convencer duas editoras brasileiras, a <em>L&amp;PM<\/em> e a <em>Brasiliense<\/em> a publicar todos os outros (autores) <em>Beats<\/em>, n\u00e9, <em>Allen Ginsberg<\/em>, <em>Lawrence Ferllinghetti<\/em>. E a\u00ed, em fun\u00e7\u00e3o disso, pessoas ligadas aos <em>Beats<\/em>, o <em>Bukowski<\/em>, <em>Charles Bukowski<\/em>, s\u00e3o autores que chegaram ao Brasil pelas minhas m\u00e3os. N\u00e3o por minhas m\u00e3os, porque eu n\u00e3o era dono de uma editora, n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es, mas por sugest\u00e3o, entendeu? Eu acho que isso foi uma coisa super importante. A outra coisa que eu acho importante, \u00e9 que eu consegui pegar um per\u00edodo da hist\u00f3ria do Brasil que \u00e9 um per\u00edodo meio nebuloso, que \u00e9 aquele que vai de 1500 a 1600, mais ou menos, 1580 que seja, que me parecia aprisionado dentro da sala de aula, e eu consegui trazer isso para a discuss\u00e3o de bar, uma discuss\u00e3o das pessoas, isso no auge do sucesso daquela cole\u00e7\u00e3o <em>Terra Brasilis.<\/em> Eu acho que foi um lance super legal. Al\u00e9m de tudo, eu editei pela <em>L&amp;PM<\/em> mais de 200 t\u00edtulos, sabe. Muitos deles nunca tinham sa\u00eddo no Brasil. Ent\u00e3o, <em>cara<\/em>, <em>p\u00f4<\/em>&#8230;<em>na boa<\/em>, <em>cara<\/em>, eu acho que eu fiz v\u00e1rias coisas assim das quais eu posso me orgulhar e me orgulho mesmo. Mas o meu maior feito pessoal, assim, n\u00e3o tem nada a ver com ningu\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 motivo de orgulho profissional, mas \u00e9 realmente uma proeza, um prod\u00edgio, que foi eu ter conseguido me aproximar do Bob Dylan, que \u00e9 um cara totalmente arredio, quase imposs\u00edvel voc\u00ea sequer se aproximar do local onde ele est\u00e1, quem dir\u00e1 ver ele, e eu me aproximei, conheci ele, convivi com ele durante um tempo e realmente isso foi um prod\u00edgio, sabe, uma coisa que me (risos) enche de alegria e espanto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SUSI: COMO \u00c9 QUE VOC\u00ca O CONHECEU (BOB DYLAN)?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>EDUARDO: <\/strong>Porque, <em>p\u00f4&#8230;<\/em>era uma devo\u00e7\u00e3o muito grande. Passei anos e anos da minha vida, <em>p\u00f4<\/em>&#8230;vendo tudo, sabendo tudo, conhecendo tudo, pesquisando obsessivamente, e a\u00ed quando ele chegou ao Brasil em janeiro de 1990, quando ele desembarcou eu conhecia todo mundo que o cercava, sabe. Sabia quem era o contador dele, o advogado dele, a cozinheira dele, o camareiro dele, entendeu, porque eu precisava muito. Eu era ajudante de um fan club para absolutos fan\u00e1ticos. Ent\u00e3o tinha tudo ali. Mas o que fez com que realmente eu pudesse abordar um dos caras, que era o personal manager dele, que era o manager pessoal, o cara que realmente cuidava da vida dele, e a\u00ed falar pro cara<em> &#8230;\u00f3 posso conhecer o Bob Dylan&#8230;<\/em> foi o fato de eu ser o tradutor da gera\u00e7\u00e3o <em>Beat<\/em> no Brasil, entendeu? De ter conhecido pessoalmente o <em>Allen Ginsberg, <\/em>s\u00e3o pessoas, assim, dif\u00edceis tamb\u00e9m de conhecer e que tinha conhecido porque eu tinha publicado seus livros aqui e eles tinham ganham um bom dinheiro com isso porque os livros venderam muito aqui no Brasil e a\u00ed o dinheiro faz <em>fita<\/em>, voc\u00ea querer conhecer a pessoa, a casa na qual voc\u00ea ganhou dinheiro. Mas da\u00ed, o <em>cara<\/em> me apresentou pra ele, e agente se deu bem e conviveu por uns tr\u00eas ou quatro anos. (risos)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SUSI: UMA SITUA\u00c7\u00c3O INUSITADA QUE TU TENHAS PASSADO NA PROFISS\u00c3O?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>EDUARDO:<\/strong> Olha, <em>cara<\/em>. De certa forma, a principal \u00e9 essa n\u00e9 (&#8230;do <em>Bob Dylan<\/em>). Porque enquanto eu tava numa luta muito profunda, intensa e pessoal. Era uma pedra angular na minha vida. Uma coisa assim chave na minha vida. Porque o <em>Bob Dylan<\/em> tinha mudado a minha vida, entendeu? Eu ouvi <em>Bob Dylan<\/em> a primeira vez com quinze anos. E foi com quinze anos&#8230;dezesseis na verdade, j\u00e1 tinha, em 1974, que da\u00ed eu decidi, sabe, assim, que eu ia ser escritor, que eu ia ser rebelde, que eu ia ser ligado \u00e0 gera\u00e7\u00e3o <em>Beat<\/em>, que eu ia ser assim tipo indom\u00e1vel, assim sabe, por causa dele. E quando eu tava nessa batalha a\u00ed com ele, eu tava como jornalista, eu trabalhava no Estad\u00e3o. Ent\u00e3o, eu tinha que encontrar uma maneira de separar a minha paix\u00e3o fervorosa por ele, com o desempenho jornal\u00edstico. E eu n\u00e3o menti, mas eu tive que omitir, eu tive que sonegar a informa\u00e7\u00e3o de que eu era jornalista. Porque, com toda raz\u00e3o, &#8230;<em>p\u00f4 cara<\/em>, tem uma hora que ele abomina o jornalista, n\u00e9. Depois que ele conhece a pessoa e sabe que al\u00e9m de ser aquilo ali a pessoa tamb\u00e9m \u00e9 jornalista, ele \u00e9 bem acess\u00edvel. Alguns conhecidos dele s\u00e3o jornalistas. Mas quando o cara chega e diz assim \u201d&#8230;<em>sou jornalista<\/em>\u201d. -\u201c<em>Ent\u00e3o, morra!<\/em>\u201d. Porque&#8230;com toda raz\u00e3o! De certa forma, claro n\u00e9! Porque tem um lado, claro, que o jornalista \u00e9 uma classe quase que desprezada por artistas e por outras&#8230;Porque, o seguinte: se o jornalista \u00e9 desprezado por pol\u00edticos, <em>p\u00f4<\/em> legal n\u00e9, \u00e9 um bom sinal, porque os pol\u00edticos s\u00e3o t\u00e3o desprez\u00edveis que ser desprezado por eles \u00e9 um bom sinal pro jornalista. Agora, quando o jornalista come\u00e7a a ser desprezado por artista, \u00e9 bom o jornalista pensar e repensar o seu papel, de quantas <em>m<\/em>&#8230; os jornalistas fazem. Claro que n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os jornalistas que fazem <em>m<\/em>&#8230;Mas os jornalistas fazem muita <em>m<\/em>&#8230; E escrevem muita <em>m<\/em>&#8230; E a\u00ed, um monte de gente n\u00e3o quer conversa com jornalista. Entre eles, o <em>Bob Dylan<\/em>. Entendeu? A n\u00e3o ser num segundo momento, como eu falei. Ent\u00e3o, foi uma situa\u00e7\u00e3o bem complicada pra mim. E eu s\u00f3 disse um tempo depois pra eles que eu era jornalista, inclusive a primeira mat\u00e9ria que eu escrevi sobre esse encontro com o <em>Bob Dylan<\/em>, o primeiro encontro, eu escrevi sem dizer pra eles que eu era jornalista, que eu ia escrever. Mas eu acho que eu fui \u00e9tico e honesto igual, porque nesta mat\u00e9ria eu n\u00e3o entreguei nada, entendeu? Eu s\u00f3 escrevi mat\u00e9rias com uma utilidade maior pro <em>Bob Dylan<\/em> depois de eu dizer pra ele que eu era jornalista e que eu ia escrever. Dessa primeira mat\u00e9ria que eu fiz, eu escrevi mais sobre mim do que sobre ele. Eu escrevi sobre a minha tentativa de chegar a ele. E quando essa mat\u00e9ria foi publicada, ele n\u00e3o sabia que eu era jornalista, nem que a mat\u00e9ria ia sair. (risos)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SUSI: TEM UM BOATO EM PORTO ALEGRE QUE TU TIVESSES LEVADO O BOB DYLAN PARA DAR UMA VOLTA NO CENTRO DE PORTO ALEGRE, \u00c9 VERDADE?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>EDUARDO:<\/strong> \u00c9, mas isso foi depois. A gente se conheceu em janeiro, 17 de janeiro de 1990 quando ele veio a <em>S\u00e3o Paulo<\/em> tocar no <em>Hollywood Rock<\/em>. Ficamos juntos at\u00e9 ele ir embora do <em>Brasil<\/em> pela manh\u00e3 do dia em 26 de janeiro de 90. Mas depois ele voltou pro <em>Brasil<\/em> em 91. Agora, n\u00e3o lembro exatamente o dia. Mas \u00e9 f\u00e1cil descobrir, foi quando ele tocou no <em>Gigantinho<\/em>. E eu morava em <em>S\u00e3o Paulo<\/em> e nos encontramos em <em>Buenos Aires<\/em>, primeiro eles tocaram em <em>Buenos Aires<\/em>. Da\u00ed a gente j\u00e1 era bem conhecido. Eu j\u00e1 tinha encontrado ele nos <em>Estados Unidos,<\/em> j\u00e1 tinha encontrado ele na <em>Europa<\/em>, j\u00e1 tinha feito uma turn\u00ea, foi pra <em>Europa do Leste<\/em>, pra <em>Budapeste<\/em>, pra <em>Gr\u00e9cia<\/em>, pra <em>Litu\u00e3nia<\/em>, l\u00e1 na <em>Cro\u00e1cia<\/em>, <em>S\u00e9rvia<\/em> com ele, j\u00e1 tinha ido \u00e0 casa dele. Ent\u00e3o eu fui pra <em>Bueno Aires<\/em>. Encontrei-o em <em>Buenos Aires<\/em>. De <em>Buenos Aires,<\/em> a gente foi pra <em>Montevid\u00e9u<\/em>, onde ele tamb\u00e9m se apresentou. De <em>Montevid\u00e9u<\/em> a gente desembarcou junto em <em>Porto Alegre<\/em>. Foi o dia da minha vida, desembarcar lado a lado com o <em>Bob Dylan<\/em> no aeroporto <em>Salgado Filho<\/em> em <em>Porto Alegre,cara<\/em>. E eu ainda de cicerone. E a\u00ed no dia seguinte, a gente foi pro <em>Morro Santa Tereza<\/em>. Depois do <em>Morro Santa Tereza<\/em>, fomos para o <em>Mercado P\u00fablico<\/em>, e a\u00ed tomamos aquela famosa salada de fruta com nata na banca 40 ent\u00e3o, a gente foi a p\u00e9 pro <em>Hotel Plaza S\u00e3o Rafael<\/em>, onde ele estava, sem ningu\u00e9m reconhecer ele. Por isso que ele, at\u00e9 hoje, adora <em>Porto Alegre<\/em>, porque nada pode ser melhor pra ele do que andar na rua e ningu\u00e9m encher o saco dele, e n\u00e3o saber quem ele \u00e9. S\u00f3 que eu, infelizmente, n\u00e3o participei do melhor momento dele em <em>Porto Alegre<\/em> dessa vez. Ele decidiu que ele ia a p\u00e9 do <em>Plaza S\u00e3o Rafael<\/em> at\u00e9 o <em>Gigantinho<\/em> pra dar o show, na hora do show. E ele foi a p\u00e9. Esse meu amigo, que era o personal manager dele e um s\u00f3 seguran\u00e7a, que foi mais longe. E a\u00ed esse meu amigo, o manager dele, dizia que as pessoas olhavam e diziam <em>-\u201dBah, olha ali um cara igual ao Bob Dylan indo pro show\u201d<\/em> (risos) e era mesmo! Ent\u00e3o, eu acho que essa \u00e9 uma hist\u00f3ria incr\u00edvel e maravilhosa e com ela n\u00f3s podemos encerrar essa entrevista, j\u00e1 que tu tens uma informa\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m tem e os teus colegas v\u00e3o ficar morrendo de inveja, porque \u00e9 a melhor informa\u00e7\u00e3o do mundo n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>(Risos) S\u00f3 agora me dei conta, que o Bob Dylan percorreu o caminho do gol, muito antes do caminho do gol existir.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Entrevistado por Susi Tesch Iniciou sua carreira aos 17 anos na Zero Hora, onde ganhou o apelido de Peninha. Jornalista, escritor, tradutor. 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